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30/04/2026

Da intenção à circularidade na prática: o desafio do retorno dos materiais

*Por Thais Fagury

Nos últimos anos, a economia circular se consolidou como um dos conceitos mais presentes nas discussões sobre sustentabilidade, inovação e gestão de resíduos. Empresas, governos e organizações da sociedade civil têm incorporado o termo em estratégias, políticas públicas e compromissos ambientais. No entanto, há uma pergunta simples que precisa orientar esse debate: a circularidade está realmente acontecendo na prática?

Refletindo sobre economia circular em embalagens, penso que um dos principais pilares e para que exista de fato, precisamos, sem dúvidas, do retorno do material para a indústria. Sem retorno, não há circularidade — há apenas intenção.

No Brasil, esse ainda é um ponto crítico. Dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente mostram que a maior parte dos resíduos sólidos ainda têm destinação inadequada. Isso significa que uma parcela significativa de materiais com valor econômico deixa de circular e se perde no sistema, muitas vezes sendo destinada a lixões ou aterros sem qualquer aproveitamento produtivo.

Essa perda não é apenas ambiental. É também social e econômica.

A cadeia da reciclagem no país movimenta bilhões de reais por ano e envolve milhares de trabalhadores, especialmente nas etapas iniciais, como coleta e triagem, segundo o Compromisso Empresarial para Reciclagem. Quando o fluxo de materiais não é estruturado, esse valor não se realiza plenamente. A renda gerada ao longo da cadeia torna-se instável e as oportunidades econômicas associadas à reciclagem deixam de se concretizar.

Por isso, discutir economia circular no Brasil exige ir além do conceito.

Não se trata apenas de reduzir resíduos ou otimizar o uso de recursos. Trata-se de garantir que exista uma cadeia funcional, contínua e economicamente viável capaz de sustentar o retorno dos materiais ao ciclo produtivo. Sem essa estrutura, a circularidade permanece mais como discurso do que como prática.

No caso das latas de aço, esse potencial é particularmente evidente. O material pode ser reciclado infinitamente sem perder suas propriedades e já conta com uma cadeia industrial preparada para absorver sucata como matéria-prima. De acordo com a World Steel Association, mais de 650 milhões de toneladas de aço são recicladas anualmente no mundo, o que reforça sua relevância dentro da economia circular global.

Mas a reciclabilidade, por si só, não garante o retorno do material.

O que garante esse retorno é a existência de uma cadeia estruturada, com fluxo organizado, incentivos adequados e integração entre os diferentes atores envolvidos — da coleta ao reprocessamento industrial.

É justamente nesse ponto que iniciativas como a Prolata Reciclagem ganham relevância. Ao atuar na organização do fluxo das latas de aço no pós-consumo, o programa busca enfrentar os gargalos que ainda impedem que a circularidade aconteça de forma plena e prática no país. Isso significa conectar os diferentes elos da cadeia, reduzir perdas operacionais e fortalecer o retorno do material para a indústria.

Quando esse fluxo funciona, o impacto se amplia.

Mais material retorna ao ciclo produtivo, mais valor econômico é capturado ao longo da cadeia e cooperativas de catadoras e catadores de materiais recicláveis ganham escala, previsibilidade e melhores condições de operação. A renda gerada pela reciclagem torna-se mais estável e a atividade passa a desempenhar um papel ainda mais relevante.

No fundo, o verdadeiro desafio da economia circular não está apenas no desenho de embalagens recicláveis, mas na capacidade de garantir que esses materiais retornem efetivamente ao ciclo produtivo.

Quando esse movimento acontece de forma contínua e estruturada, a circularidade deixa de ser uma promessa e passa a se consolidar como uma estratégia concreta de desenvolvimento sustentável.

É nesse caminho — da intenção à prática — que a economia circular encontra seu verdadeiro sentido.


*Thais Fagury é presidente executiva da Abeaço – Associação Brasileira de Embalagem de Aço- entidade que representa a cadeia de valor das embalagens de aço no Brasil. Também é presidente executiva da Prolata Reciclagem, entidade gestora para logística reversa de embalagens de aço. Atua há anos na articulação entre indústria, poder público e organizações da sociedade civil para avançar agendas de economia circular, logística reversa, mercado, inovação, educação e gestão sustentável de resíduos. É defensora do fortalecimento da reciclagem como estratégia de desenvolvimento econômico, geração de renda e transição para uma economia de baixo carbono.


 

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